C uidado ao tocar o coração de alguém, que é terra desconhecida, terreno misterioso. Tenha cuidado ao pisar! Peça licença para entrar e, se ...

Cuidado ao tocar o coração de alguém

Cuidado ao tocar o coração de alguém, que é terra desconhecida, terreno misterioso. Tenha cuidado ao pisar! Peça licença para entrar e, se não souber o que falar, apenas ouça, mas não julgue. Cada um sente a vida de uma maneira e há cicatrizes que ainda doem. Tenha respeito, pois não se sabe das histórias vividas ali, dos dias de inverno, do nó na garganta, das alegrias que viraram saudade, dos passos que trilharam um caminho por onde você não passou. Cuidado ao tocar o coração de alguém!

Eunice Ramos




  D efinitivo, como tudo o que é simples, nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Sofr...

Definitivo

 Definitivo, como tudo o que é simples, nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional!

Martha Medeiros


A única coisa que escrevi sobre política, nestes últimos tempos, foi nesta semana. E só escrevi porque estava em árabe, e a cultura ára...

Mea culpa no chutão cósmico

A única coisa que escrevi sobre política, nestes últimos tempos, foi nesta semana. E só escrevi porque estava em árabe, e a cultura árabe é uma parte da cultura mundial que involuntariamente passou a constituir meu coração. E não pensem que porque está no meu coração, gosto disso de verdade. Gosto de muitas coisas e nada é de verdade. Tudo é contingente. Tudo é libidinoso.

A verdade é que não acompanho política, nem acontecimentos mundiais como olimpíada ou copa do mundo. Não acompanhar significa não ler, não assistir. Ignorar. Ser ignorante. Tudo o que sei chega até mim pelos malditos fogos de artifício, e, tendo escutado os fogos, sei que algo aconteceu. Então quando venho até o FB em busca de realizar meus mais recônditos e secretos desejos (que bom se eles fossem essa baixaria que você, que me lê, imaginou), descubro o que está acontecendo.

A realidade não me interessa mais. Não me interessa mais saber se o golpe tá disfarçado de democracia, se pessoas humanas foram caceteadas pelos animais da polícia, não me interessa mais saber que refugiados perderam mais um familiar ou um amigo querido nas guerras que seguem sem trégua pelo mundo afora, não me interessa mais saber que não há alimento para todas as bocas miseráveis que dormem nas calçadas, não me interessa mais saber que não há abrigo e assistência para velhos e desequilibrados mentais, não me interessa mais saber que os animais continuam sendo sacrificados, porque acredito que não há como reduzir um prazer gustativo numa vida já tão carente de prazeres, não me interessa saber sobre vícios e viciados, porque não há como cortar os vícios nesse stress que não dá folga para o ócio e o lazer necessários para se ter uma vida saudável, não me interessa saber sobre minorias oprimidas, preconceitos raciais, feminismo, economia colaborativa, posicionamentos politicamente corretos e o diabo a quatro que há por trás de qualquer boa intenção.

Mea culpa no chutão cósmico
Alienei-me voluntariamente de tudo porque há em mim uma dor que me quer matar. A dor de ver a inconsciência, a ignorância e a debilidade humanas. Sou pretensiosa? Arrogante? Não. Deixei-me levar pela ignorância, pela debilidade e pela inconsciência, porque essa é a grande tendência da massa humana a que pertenço. Tá na metade do gen italo-ibérico-ariano nazi-fascista europeu a que pertenço.

Aprendi, muito recentemente, a rezar e a jogar pra Deus as minhas esperanças. Observar conjunções e oposições planetárias também ajudam. Adivinhação turca em borra de café. Meditação. Mandalas indianas. Dança de roda greco-celta-israelita. Afinal, o que seria da transcendência se a realidade se bastasse a si mesma? Entendi que a diversidade humana é tão bonita quanto desinteressante. Tão desprezível quanto miraculosa. Esse balaio terráqueo em que estamos metidos é mesmo a periferia da galáxia. Não se enganem aqueles que habitam as áreas centrais e nobres, quer seja do espaço geográfico, quer seja do pensamento.

De um jeito ou de outro somos ou estamos na periferia. Nossa visão é relativa. Nossos acertos são relativos. Nossos amores são temporários, ainda que se pretendam eternos. A única coisa absoluta é o nosso aparente (assim espero, que seja aparente) desamparo e a nossa infinita ignorância diante da morte. Esse é o único clichê deliberado. Lugar-comum de onde não se pode escapar. É porque vamos morrer que chutamos o pau da barraca. Que se ralem os oprimidos, os reprimidos, os pobres, os animais maltratados, os fodidos de toda espécie. Meus minutos estão contados e mal sei o que fazer comigo, que dirá pensar nos outros.

Mea culpa no chutão cósmico
Mas uma coisa é certa. Eu hei de arder no inferno, porque a alienação que ora me protege voltará como bumerangue. É a tal da lei físico-espiritual da ação e reação. Mais cedo ou mais tarde, viva ou já desencarnada, terei que acordar. A lei severa da economia cósmica há de me cobrar. E não é dando esmola pra pobre ou devolvendo o troco errado pro caixa que vou me livrar. Migalhas generosas não servem. Não há anistia para a dívida e para os prejuízos causados pela inconsciência... nem para mim nem para a horda de zumbis a que resolvi me juntar. 

O chutão cósmico vai nos derrubar de cima do muro. Eu já posso pressentir. Sou sensitiva. Signo de água. Minha sensibilidade serve para me tirar a paz. Teremos que responder por tudo isso, eu e meus adoráveis comparsas.


By Marta Aguiar

V ocê ter utilidade para alguém é uma coisa muito cansativa. Tá certo, realiza. Humanamente falando é interessante você saber fazer as c...

A diferença entre “ser amado” e “ser útil”

Você ter utilidade para alguém é uma coisa muito cansativa. Tá certo, realiza. Humanamente falando é interessante você saber fazer as coisas, mas eu acredito que a utilidade é um território muito perigoso, porque muitas vezes a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. Ele está interessado naquilo que a gente faz por ele e é por isso que a velhice é esse tempo que passa a utilidade, e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é um momento que a gente purifica, né? É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade. 

Porque só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. Por isso eu sempre peço a Deus, sabe? Sempre faço à Ele, a oração D’Ele: poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranquilidade de ser inútil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor. Quando eu viver aquela fase na vida: põe o padre Fábio no sol… tira o padre Fábio do sol… Aí eu peço à Deus sempre a graça de ter quem me coloque ao sol, mas sobretudo, alguém que venha me tirar depois. Alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe para mim assim, que sabe  que possa saber que eu não sirvo para muita coisa, mas que eu continuo tendo meu valor. 

Porque a vida é assim, minha gente, fique esperto viu? Se você quiser saber se o outro te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém? pergunte a si mesmo: quem nessa vida já pode ficar inútil pra você, sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora? É assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir a fala que diz: “você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você.”


Pe. Fábio de Mello